Um dia em família

Deitado na cama aos poucos vou abrindo os olhos, o celular a metros da cama grita como se fosse o último alarme de vida, minha cachorra ali ainda deitada, não faz mais barulho, ela olha como se nada tivesse acontecido e como se perguntasse “já está na hora de levantar? Vou ficar mais cinco minutos, pode? ” Virando a cara como se não estivesse mais interessada.

Lembro quando ela fazia a maior festa ao acordar, fazendo questão de acordar a toda a família, transformando mais um amanhecer comum em algo especial, ainda me lembro dos dias em que ao abrir a porta dos fundos da casa, eles (os cinco) saíam alvoroçados direto para o quarto, pulando em cima da cama, puxando todos os fios do videogame, que vivia deixando jogado entre o quarto, mas o importante para eles era falar um grande e alegre “bom dia” para todo mundo, em latidos agudos e cheios de energia.

Ao olhar para o celular, dez horas da manhã, domingo, algumas mensagens para serem lidas, entre elas estava: “Hoje é aniversário do Simba”, neste momento minha memória voltou a alguns anos atrás (vinte e dois anos ao todo), no dia em que conheci esse pequeno e revoltado ser.

Simba, um Pinscher, revoltado com a sua própria natureza, vivia rodando tentando comer o seu próprio rabo cortado, atacante de tênis e sapatos, chamávamos ele de Rei da Selva, graças à trilogia “O Rei Leão”, ele tinha um latido agudo e era o cachorro mais respeitado da casa, sempre estava acompanhado de seu melhor amigo Thor, cachorro da raça Dachshund, Thor pelo desenho da Marvel, adestrado por sua própria natureza, o tipo de cachorro que não precisava de coleira ao sair na rua, não sabíamos quantos anos ele tinha, mas sabíamos que ele era forte e deveríamos tomar cuidado, infelizmente eles não estão entre nós.

Depois de poucos segundos, escuto de longe o barulho vindo da cozinha, algo me dizia que seria uma reunião em família, reunião de família é sempre assim, o povo vai chegando, vai seguindo para o quintal e metade para na cozinha, logicamente para saber como está a situação da comida, mas família é família, tudo se resume num frango caipira bem temperado, pelo menos todos comiam frango, incrivelmente, sempre tem aquele que não come alguma coisa, então nada mais simples do que fazer a única coisa que todos comem.

Soube que minha avó estava ali, sempre foi raro minha avó estar presente, sempre existia alguma desculpa ou algo assim, então íamos até a casa dela, do que ela vir até a nossa, junto a ela havia mais cinco mulheres, tias e mães de uma grande família, a cozinha era pequena, então não tinha muito espaço, logo para cumprimentar a todos existia a necessidade de ir cavando espaço entre as cadeiras da mesa. Aos poucos fui cumprimentando a todos e antes mesmo de eu terminar de falar “bom dia” para minha mãe, ouvi de longe alguém me chamando, virei rapidamente respondendo ao chamado e disperso olhando em direção do quintal, eram os outros primos, uma pequena reunião de cinco ou seis.

Aquele foi um dia feliz, mas só fui ter consciência disso muitos anos depois. Na época me pareceu um dia comum e rodeado das pessoas que sempre estavam ali. Um dia onde as mulheres conversavam sobre a novela, meu pai e meus tios falavam sobre a Fórmula 1 e os primos e primas de besteiras ao redor, mas infelizmente minha avó já não está ente nós, e desde então as reuniões de família não são mais as mesmas, falta uma das pessoas mais importantes para o sorriso de muitos. Os primos crescem e vida vai direcionando, se tornando distantes mesmo perto. Alguns já estão fazendo o almoço de domingo das suas próprias famílias. Um dos meus tios deixou de morar próximo e com ele foram mais dois primos e uma tia que amo mundo, logo também já não estão presentes na maioria das reuniões. O videogame eu acabei vendendo, já que não tinha mais com quem jogar, o tempo foi fazendo perder a graça. Até mesmo minha cachorrinha já não é mais animada quanto era. Sinto falta de todos que ali estavam. O tempo passou e sei que aquele foi um domingo mágico. Curioso como são as coisas. O melhor dia da sua vida pode ser o dia do seu casamento ou o dia do nascimento do seu filho. Pode ser, mas talvez seja como o meu. Um almoço aparentemente comum, rodeado de tudo aquilo que de mais importante a vida te deu. Por que viver nada mais é que um chegar e partir de tudo que aprendemos a amar, e a saudade será sempre essa máquina que não funciona direito. Sei que um dia todos nos reuniremos novamente, e novamente em um dia qualquer, alguém vai me chamar do outro lado da casa e ao falar bom dia para minha mãe vou terminar a frase dizendo com um grande beijo no rosto e um presente nas mãos, “feliz dia das mães”, então vou saber que aquele vai ser mais um dia especial, para mim e para todos ali presentes, porque família é isso.

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